VI. MORFOLOGIA E MORFOSSINTAXE
Vamos mergulhar nos fascinantes domínios da Morfologia e da Morfossintaxe, explorando a estrutura interna das palavras, seus processos de formação, o significado que os afixos carregam, e, crucialmente, como as classes gramaticais se flexionam e desempenham funções específicas na construção das frases e orações. Este conhecimento é a base para uma compreensão profunda do funcionamento da língua.
Distinção Inicial: Morfologia vs. Morfossintaxe
· Morfologia: É o estudo da estrutura interna das palavras, dos processos de formação de novas palavras e da classificação das palavras em suas respectivas classes gramaticais (substantivo, verbo, adjetivo, etc.), analisando-as isoladamente ou em seu paradigma flexional.
· Morfossintaxe: É o estudo das classes de palavras (aspecto morfológico) e de suas funções dentro de uma estrutura sintática (frase, oração, período). Ela examina como a forma de uma palavra se relaciona com seu papel na oração e como as palavras se combinam para formar unidades maiores de sentido.
I. Estrutura e Formação de Palavras
As palavras são formadas por unidades menores dotadas de significado, chamadas morfemas.
A. Elementos Mórficos (Morfemas):
1. Radical (ou Semantema): É o morfema que contém o significado lexical básico da palavra. É a parte comum a um grupo de palavras da mesma família (cognatas).
o Exemplo: terr- (em terra, terreno, aterrar, terráqueo)
2. Afixos: Morfemas que se juntam ao radical para modificar seu significado ou formar novas palavras.
o Prefixos: Antepostos ao radical.
§ Exemplo: in-feliz (prefixo in- + radical feliz)
o Sufixos: Pospostos ao radical.
§ Exemplo: feliz-mente (radical feliz + sufixo -mente)
3. Desinências: Morfemas que indicam as flexões das palavras (variações para indicar gênero, número, pessoa, modo, tempo).
o Desinências Nominais:
§ De Gênero: indicam masculino/feminino (ex.: menin**-o** / menin**-a**).
§ De Número: indicam singular/plural (ex.: menino**-s**).
o Desinências Verbais:
§ Modo-Temporais: indicam o modo e o tempo do verbo (ex.: cantávamos – ‘-va-’ indica pretérito imperfeito do indicativo).
§ Número-Pessoais: indicam a pessoa e o número do verbo (ex.: cantávamos – ‘-mos’ indica 1ª pessoa do plural).
4. Vogal Temática (VT): Morfema que liga o radical às desinências, preparando-o para receber flexões. Indica a conjugação dos verbos e a classe de nomes.
o Nominal: -a, -e, -o átonos finais (ex.: casa, dente, livro). Palavras terminadas em consoante ou vogal tônica não possuem vogal temática nominal (ex.: mar, café).
o Verbal:
§ -a-: 1ª conjugação (ex.: cantar)
§ -e-: 2ª conjugação (ex.: vender)
§ -i-: 3ª conjugação (ex.: partir)
5. Tema: É o conjunto formado pelo Radical + Vogal Temática.
o Exemplo: casa (radical cas- + VT -a); canta (radical cant- + VT -a)
6. Vogais e Consoantes de Ligação: Morfemas de função eufônica, ou seja, que aparecem entre outros morfemas para facilitar a pronúncia. Não possuem significado próprio.
o Exemplo: cafeteira (consoante de ligação 't'), gasômetro (vogal de ligação 'ô').
B. Processos de Formação de Palavras:
1. Derivação: Formação de uma nova palavra (derivada) a partir de outra já existente (primitiva), pela anexação de afixos ou por outros processos.
o Derivação Prefixal (ou Prefixação): Acréscimo de um prefixo ao radical.
§ Exemplo: desfazer, incapaz, reler.
o Derivação Sufixal (ou Sufixação): Acréscimo de um sufixo ao radical (ou tema).
§ Exemplo: felizmente, igualdade, florescer.
o Derivação Parassintética (ou Parassíntese): Acréscimo simultâneo de um prefixo e um sufixo ao radical. A retirada de um dos afixos resulta em uma palavra inexistente na língua ou com sentido totalmente diferente.
§ Exemplo: entristecer (não existe entriste nem tristecer com o mesmo radical de triste), desalmado (não existe desalme nem almado com o sentido de alma).
o Derivação Regressiva (ou Deverbal): Formação de substantivos (geralmente abstratos, indicando ação) a partir de verbos, pela eliminação da desinência verbal e, frequentemente, acréscimo de uma vogal temática nominal (-a, -e, -o).
§ Exemplo: comprar → compra; atacar → ataco; debater → debate.
o Derivação Imprópria (ou Conversão): Mudança da classe gramatical de uma palavra sem qualquer alteração em sua forma. O contexto define a nova classe.
§ Exemplo: O jantar estava ótimo (verbo 'jantar' usado como substantivo). / Ele fala baixo (advérbio 'baixo' usado como adjetivo, ou vice-versa, dependendo do contexto). / Um porquê misterioso (conjunção/advérbio usado como substantivo).
2. Composição: Formação de uma nova palavra pela união de dois ou mais radicais.
o Composição por Justaposição: Os radicais se unem sem que haja alteração fonética. Pode ou não haver hífen.
§ Exemplo: passatempo, girassol, couve-flor, segunda-feira.
o Composição por Aglutinação: Os radicais se unem e ocorre alteração fonética em pelo menos um deles (perda de fonemas ou acentuação).
§ Exemplo: planalto (plano + alto), aguardente (água + ardente), vinagre (vinho + acre).
3. Outros Processos de Formação:
o Hibridismo: Palavra formada por elementos de línguas diferentes.
§ Exemplo: sociologia (latim + grego), automóvel (grego + latim), televisão (grego + latim).
o Abreviação (ou Redução): Forma reduzida de uma palavra, geralmente pela eliminação de parte dela.
§ Exemplo: moto (de motocicleta), foto (de fotografia), pneu (de pneumático), cine (de cinema).
o Siglonimização (Formação de Siglas): Palavra formada pelas letras ou sílabas iniciais de uma sequência de palavras que constitui um nome.
§ Exemplo: ONU (Organização das Nações Unidas), CPF (Cadastro de Pessoas Físicas), IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Algumas siglas podem ser pronunciadas como palavras: CEP /sɛp/.
o Onomatopeia: Palavra que busca imitar sons ou ruídos.
§ Exemplo: tique-taque, miau, zumbido, cocoricó.
o Empréstimo Linguístico (Estrangeirismo): Incorporação de palavras de outras línguas ao léxico português. Podem ser aportuguesadas ou não.
§ Exemplo: show, shopping, software, layout, abajur (do francês abat-jour), futebol (do inglês football).
o Neologismo: Criação de novas palavras para suprir novas necessidades de comunicação ou por razões estilísticas. Pode ser formado por processos já existentes (derivação, composição) ou ser uma criação lexical pura.
§ Exemplo: "deletar" (do inglês to delete, já incorporado), "internetês".
II. Sentido dos Afixos
Os afixos (prefixos e sufixos) não apenas formam novas palavras, mas também agregam ou modificam o sentido do radical.
A. Principais Sentidos dos Prefixos (origem grega ou latina):
· Negação, oposição: a-, an- (anormal); in-, im-, i- (infeliz, impossível, ilegal); des-, dis- (desleal, discordar); contra- (contra-ataque).
· Repetição, para trás: re- (refazer, retornar).
· Anterioridade (tempo, espaço): ante-, pre- (antebraço, prever).
· Posterioridade (tempo, espaço): pos- (pospor, pós-graduação).
· Movimento para dentro: in-, im-, en-, em- (ingerir, imigrar, enterrar, embarcar).
· Movimento para fora: ex-, es-, e- (exportar, escorrer, emigrar).
· Posição inferior, insuficiência: sub-, sob-, infra- (subsolo, soterrar, infraestrutura).
· Posição superior, excesso: super-, supra-, hiper- (supermercado, suprassumo, hipertensão).
· Companhia, união: com-, con-, co- (companheiro, conectar, cooperar).
· Em torno de: circum-, peri- (circunferência, perímetro).
· Através de: per-, trans-, dia- (percorrer, transportar, diálogo).
· Dualidade, duas vezes: bi-, bis- (bimestre, bisavô).
· Metade: semi-, hemi- (semicírculo, hemisfério).
B. Principais Sentidos dos Sufixos:
· Sufixos Nominais (formam substantivos e adjetivos):
o Ação ou resultado da ação: -ção, -são, -mento, -ância, -ência, -ança, -ença, -ada, -agem (formação, compreensão, casamento, tolerância, vivência, mudança, cobrança, passagem).
o Qualidade, estado: -dade, -ez, -eza, -ice, -ura, -itude (lealdade, sensatez, beleza, velhice, formosura, amplitude).
o Agente, profissão, quem pratica a ação: -or, -dor, -tor, -eiro, -ista, -nte (lutador, vendedor, inspetor, padeiro, jornalista, estudante).
o Lugar: -aria, -ia, -ório, -douro, -tório (padaria, secretaria, dormitório, bebedouro, refeitório).
o Instrumento, objeto: -dor, -douro, -tório (computador, bebedouro, lavatório).
o Aumentativo: -ão, -zarrão, -aço, -ona (casarão, homenzarrão, ricaço, mocetona).
o Diminutivo: -inho, -zinho, -ito, -zito, -eco, -ote, -ela (casinha, pezinho, cãozito, libreto, casebre, viela).
o Origem, naturalidade (pátrios): -ês, -esa, -ano, -eno, -ense, -ista (português, francesa, baiano, chileno, cearense, paulista).
o Referente a, que tem a qualidade de (formam adjetivos): -al, -ar, -ico, -oso, -udo, -ento, -ivo (anual, escolar, histórico, gostoso, barbudo, cruento, criativo).
· Sufixos Verbais (formam verbos):
o Indicam ação, processo, estado: -ar, -er, -ir (terminações de infinitivo); -izar (realizar), -ecer (anoitecer), -ear (folhear), -ificar (clarificar).
· Sufixo Adverbial:
o Forma advérbios de modo: -mente (felizmente, calmamente).
III. Classes Gramaticais: Função e Flexão (Morfossintaxe)
São dez as classes gramaticais. Analisaremos sua definição (morfologia), suas flexões (morfologia) e sua função sintática típica (morfossintaxe).
1. Substantivo: Palavra que nomeia seres em geral (pessoas, animais, lugares, objetos), sentimentos, estados, qualidades, ações.
o Flexão: Gênero (masculino, feminino), Número (singular, plural), Grau (aumentativo, diminutivo – analítico ou sintético).
o Função Sintática Típica: Núcleo do sujeito, do objeto direto, do objeto indireto, do complemento nominal, do agente da passiva, do predicativo, do aposto, do vocativo; pode exercer função de adjunto adverbial (quando indica circunstância, ex.: "Viajaram à noite").
2. Artigo: Palavra que antecede o substantivo para determiná-lo (definido: o, a, os, as) ou indeterminá-lo (indefinido: um, uma, uns, umas).
o Flexão: Gênero e Número (concordando com o substantivo).
o Função Sintática Típica: Adjunto adnominal.
3. Adjetivo: Palavra que caracteriza ou qualifica o substantivo, atribuindo-lhe qualidades, estados, aspectos ou relações.
o Flexão: Gênero, Número (concordando com o substantivo) e Grau (comparativo, superlativo).
o Função Sintática Típica: Adjunto adnominal (se ligado diretamente ao nome) ou Predicativo (do sujeito ou do objeto, ligado ao nome por um verbo de ligação ou com auxílio de um verbo transitivo).
o Locução Adjetiva: Expressão com valor de adjetivo (ex.: amor de mãe = amor maternal).
4. Numeral: Palavra que indica quantidade exata de seres ou a posição que ocupam numa série.
o Tipos: Cardinais (um, dois), Ordinais (primeiro, segundo), Multiplicativos (dobro, triplo), Fracionários (meio, terço).
o Flexão: Alguns cardinais (um/uma, dois/duas, centenas a partir de duzentos), ordinais, multiplicativos e fracionários flexionam-se em gênero e/ou número.
o Função Sintática Típica: Adjunto adnominal; pode ser núcleo de um termo sintático quando substantivado ou referindo-se a um substantivo elíptico.
5. Pronome: Palavra que substitui o substantivo (pronome substantivo) ou o acompanha (pronome adjetivo), referindo-se às pessoas do discurso ou situando seres no tempo e no espaço.
o Tipos e Funções Típicas:
§ Pessoais: (Reto: eu, tu... Sujeito; Oblíquo: me, te, se... Complemento verbal, complemento nominal, adjunto adnominal; De Tratamento: você, Vossa Excelência... Sujeito, vocativo).
§ Possessivos: (meu, teu...) Adjunto adnominal.
§ Demonstrativos: (este, esse, aquele...) Adjunto adnominal, núcleo de termos (sujeito, objeto, etc.), elemento anafórico ou catafórico.
§ Indefinidos: (alguém, ninguém, tudo, nada, cada, certo...) Adjunto adnominal, núcleo de termos.
§ Relativos: (que, quem, cujo, onde, o qual...) Conectam orações; exercem função sintática na oração adjetiva que introduzem (sujeito, objeto, etc., referente ao antecedente).
§ Interrogativos: (que, quem, qual, quanto...) Usados em frases interrogativas; função varia conforme o contexto.
o Flexão: Gênero, Número e Pessoa (conforme o tipo).
6. Verbo: Palavra que indica ação, estado, mudança de estado ou fenômeno da natureza, situando-os no tempo. É o elemento central da oração.
o Flexão: Pessoa (1ª, 2ª, 3ª), Número (singular, plural), Tempo (presente, pretérito, futuro), Modo (Indicativo, Subjuntivo, Imperativo) e Voz (Ativa, Passiva, Reflexiva).
o Formas Nominais: Infinitivo, Gerúndio, Particípio.
o Função Sintática Típica: Núcleo do predicado (verbal ou verbo-nominal).
7. Advérbio: Palavra invariável (em regra) que modifica o sentido do verbo, do adjetivo ou de outro advérbio, exprimindo uma circunstância (tempo, lugar, modo, intensidade, negação, afirmação, dúvida, etc.).
o Flexão: Geralmente invariável, mas alguns podem ter grau (comparativo, superlativo – ex.: mais cedo, muitíssimo bem).
o Função Sintática Típica: Adjunto adverbial.
o Locução Adverbial: Expressão com valor de advérbio (ex.: às pressas, com certeza).
8. Preposição: Palavra invariável que liga dois termos da oração, subordinando o segundo ao primeiro. Estabelece relações de sentido (posse, lugar, tempo, modo, causa, fim, etc.).
o Essenciais: a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, sem, sob, sobre, trás.
o Acidentais: palavras de outras classes1 usadas como preposição (ex.: como, conforme, segundo, durante, mediante).
o Flexão: Invariável.
o Função Sintática Típica: Conectivo; núcleo de locuções que funcionam como adjuntos ou complementos. Introduz complementos nominais, objetos indiretos, adjuntos adnominais preposicionados, adjuntos adverbiais.
9. Conjunção: Palavra invariável que liga orações entre si ou termos de mesma função sintática dentro de uma oração.
o Coordenativas: ligam orações ou termos independentes (Aditivas, Adversativas, Alternativas, Conclusivas, Explicativas).
o Subordinativas: ligam uma oração principal a uma oração subordinada, dependente dela (Integrantes, Causais, Comparativas, Concessivas, Condicionais, Conformativas, Consecutivas, Finais, Proporcionais, Temporais).
o Flexão: Invariável.
o Função Sintática Típica: Conectivo.
10. Interjeição: Palavra ou locução invariável que exprime emoções, sensações, estados de espírito, apelos, ordens súbitas. Geralmente acompanhada de ponto de exclamação.
o Exemplo: Ah!, Oh!, Ufa!, Psiu!, Bravo!, Socorro!
o Flexão: Invariável.
o Função Sintática Típica: Não desempenha função sintática nos termos tradicionais da oração; é considerada uma "palavra-frase" ou um elemento de valor emotivo/expressivo.
Abordagem em Concursos
Em concursos para professor, espera-se um domínio profundo desses conceitos. As questões podem envolver:
· Identificação de morfemas e sua classificação.
· Análise do processo de formação de palavras específicas.
· Interpretação do sentido agregado por prefixos e sufixos.
· Classificação morfológica de palavras em diferentes contextos.
· Análise da função sintática desempenhada por palavras de determinada classe.
· Identificação e correção de flexões nominais e verbais.
· Relação entre a escolha de uma determinada classe gramatical ou forma flexionada e os efeitos de sentido produzidos no texto.
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